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Não Somente Semicondutores: O Vale do Silício e a Cultura da Inovação

Ashlee Vance

Venture Capital Meets Hi-Tech

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Capital de Risco: Um Manual Básico
Perfil de Empreendedora Imigrante: Asa Kalavade, co-fundadora do Tatara Systems, nascida na Índia
Da Ponderosa ao Googleplex: Como os Americanos Combinam Dinheiro com Idéias
Perfil de Empreendedor Imigrante: Patrick Lo, fundador da Netgear, nascido na China
Por dentro do Mundo Real dos Capitalistas de Risco
Perfil de Empreendedora Imigrante: Nancy Chang, co-fundadora da Tanox, nascida em Taiwan
Como Iniciar sua Empresa de Alta Tecnologia
Perfil de Empreendedor Imigrante: Zvi Or-Bach, fundador da eASIC, nascido em Israel
Não Somente Semicondutores: O Vale do Silício e a Cultura da Inovação
A Ascensão da Classe Criativa
Em Números
Recursos na Internet
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Uma das empresas “herdeira da Fairchild”, a Advanced Micro Devices Corp. fabrica microprocessadores a partir de lâminas de silício (Matthias Rietschel/© AP Images)

O sucesso da região do Vale do Silício, no norte da Califórnia, não é produto do acaso, mas de desdobramentos históricos que criaram uma cultura de inovação e de informações compartilhadas entre os empreendedores.

Ashlee Vance é autor de Geek Silicon Valley [O Vale do Silício e seus especialistas “high-tech”], guia cultural e histórico da região. É também editor do site de tecnologia on-line The Register e colaborador freqüente da revista Economist e do jornal New York Times.

Quem estiver familiarizado com as complexidades e singularidades históricas por trás da ascensão rumo à excelência tecnológica do Vale do Silício compreenderá a enorme tarefa enfrentada pelos que procuram copiar seu sucesso em qualquer parte dos Estados Unidos e do mundo. Várias lideranças civis e empresariais parecem ter decidido que a combinação da mistura “certa” de capital, apoio acadêmico, talento e perspicácia empresarial será capaz de clonar o Vale do Silício de forma convincente. Isso é compreensível, porém subestima as forças culturais que colocaram o Vale do Silício no epicentro da indústria mundial de alta tecnologia.

Se voltássemos aos anos 1950, seríamos possivelmente incapazes de identificar o conjunto de bairros residenciais de classe média interligados a cerca de 65 km ao sul de São Francisco como a futura capital da tecnologia da computação. Naquela época, os habitantes da região o chamavam de Vale das Delícias do Coração. Sem nenhuma lâmina de silício a ser encontrada, pomares de pêras, cerejas, pêssegos e outras frutas dominavam a área da península central aninhada entre a Baía de São Francisco e as Montanhas de Santa Cruz.

Diversos historiadores indicam a volta de William Shockley da Costa Leste, em 1956, como o gatilho da transformação dessas terras exuberantes em parques empresariais, centros de compra e campi empresariais. Shockley, creditado como co-inventor do transistor em 1947 (trabalhava, nessa época, para os Laboratórios Bell), selecionou Mountain View, na Califórnia, como a nova casa para sua empresa iniciante de semicondutores de silício. Em vez disso, ele poderia ter escolhido Dallas, no Texas, ou Los Angeles, como teria preferido seu investidor, mas Shockley estava tentando recuperar-se de um ambiente de trabalho estressante e de um divórcio. Ele precisava de uma mudança. Também precisava ficar perto da mãe, que ainda vivia na casa da família, no norte da Califórnia, próximo à Universidade de Stanford.

Veteranos do Vale do Silício como Gordon Moore — que inicialmente trabalhava para Shockley e depois se transformou em co-fundador da Fairchild Semiconductor e da Intel Corporation — dizem que a indústria de semicondutores provavelmente teria irrompido em algum outro lugar não fosse a decisão de Shockley. Ele atraiu algumas das mentes mais brilhantes do país para Mountain View e, numa jogada arriscada, escolheu o silício como o substrato fundamental por trás de sua iniciativa com semicondutores. Embora a jogada de Shockley tenha sido fundamental para o desenvolvimento do Vale do Silício, uma série de fatores empresariais e culturais subjacentes já havia preparado o Vale para seu novo papel e maximizado o impacto da chegada de Shockley.

Google co-founders Larry Page, left, and Sergey Brin rest on beanbags at their company's Mountain View, California, headquarters.
Os co-fundadores da Google Larry Page (esquerda) e Sergey Brin descansam sobre pufes na sede da empresa em Mountain View, na Califórnia (Randi Lynn Beach/© AP Images)

No começo foi o rádio

No alvorecer do século 20, amadores e empreendedores curiosos começaram a trabalhar com tecnologia de rádio e eletrônica. A área da Baía de São Francisco era um local natural para esse trabalho devido à presença da Marinha dos EUA, que tinha intenção de usar radiocomunicação em alto-mar.

Em 1909, um dos mais conhecidos entre os primeiros formandos da Universidade de Stanford, Cyril Elwell, ampliou as fronteiras da radiocomunicação ao criar o que se tornaria a Companhia Federal de Telégrafos. Essa empresa construiu alguns dos maiores transmissores de arco da época — dispositivos capazes de enviar a fala por ondas sonoras em um raio de até 240 quilômetros. Poucos anos após sua fundação, a Companhia Federal de Telégrafos havia criado para a Marinha uma cadeia de transmissores de arco ligando São Francisco ao Havaí. Enquanto isso, o laboratório da empresa em Palo Alto, Califórnia, financiou trabalho inovador sobre o “audion” — dispositivo capaz de amplificar sinais elétricos em um tubo de vácuo. Essa tecnologia e seus derivados contribuiriam para o funcionamento dos primeiros computadores.

Com freqüência atormentados pela falta de investimento, talento e infra-estrutura, esses pioneiros foram forçados a inventar novos maneiras de concorrer com rivais maiores e mais antigos da Costa Leste. Conseqüentemente, muitos dos primeiros inventores da área da Baía se concentraram na fabricação de produtos de custo mais baixo e melhor qualidade ou na resolução de problemas muito específicos. Com freqüência, achavam mais vantajoso compartilhar suas idéias com pares e rivais. Essa abertura e o reconhecimento dessa engenhosidade estiveram presentes em todos os períodos de invenção importantes do Vale do Silício.

Empresas como Eitel and McCullough, Litton Engineering Laboratories e Varian Associates deram continuidade ao trabalho com eletrônica na península central. Em 1939, seus esforços haviam criado condições suficientemente favoráveis para seduzir dois profissionais formados por Stanford — Bill Hewlett e Dave Packard — a iniciar sua própria empresa de equipamentos eletrônicos de testes em Palo Alto, na extremidade norte do futuro Vale do Silício e berço da Universidade de Stanford.

A co-inventor of the transistor, William B. Shockley established his semiconductor start-up in northern California and launched the Silicon Valley as a center of high technology.
Co-inventor do transistor, William B. Shockley estabeleceu sua empresa de semicondutores no norte da Califórnia e lançou o Vale do Silício como centro de alta tecnologia (© AP Images)

Entra em cena Fred Terman

Fred Terman, professor de Stanford de vocação estratégica e pesquisador de rádio, valeu-se dessa indústria nascente para estabelecer laços estreitos entre seus estudantes e os empreendedores locais. Ele apresentava os estudantes aos empresários locais e arranjava-lhes estágios. Foi Terman quem encorajou Hewlett and Packard a lançar sua empresa.

De diversas maneiras, Terman foi o pioneiro desse modelo de ligação entre uma universidade de destaque e empresas locais. Seus esforços tornaram possível aos estudantes brilhantes de Stanford encontrar empregos e um futuro na área em vez de sair correndo à procura de empresas mais antigas do Meio-Oeste e da Costa Leste. Da mesma maneira, Terman ajudou a persuadir William Shockley a ir para o Vale das Delícias do Coração, prometendo-lhe um fluxo de estudantes de primeira linha ansiosos por trabalhar e aprender com um físico de ponta.

A capacidade de Shockley de atrair alguns dos jovens cientistas mais brilhantes da nação para o Vale do Silício foi da maior importância para o desenvolvimento futuro da região. Em última análise, porém, seu estilo gerencial pouco ortodoxo, embora desagradável, mostrou ser sua contribuição mais duradoura. Sem disposição para lidar com as mudanças de humor de Shockley e sua falta de perspicácia comercial, oito de seus principais empregados deixaram o laboratório para formar uma nova empresa.

Os “oito traidores”, como Shockley os descreveu, tiveram sorte ao atrair a atenção de Arthur Rock, investidor da Costa Leste. Rock ofereceu um acordo insólito para a época. Ele convenceu uma empresa já constituída, a Fairchild Camera and Instrument, a admitir o grupo inteiro de ex-funcionários de Shockley para formar uma nova subsidiária, chamada Fairchild Semiconductor. Todos os funcionários receberam participação significativa na nova empresa. Esse modelo, que combina capital de risco e participação dos funcionários, passaria a ser a base do futuro desenvolvimento e crescimento do Vale.

As "herdeiras" da Fairchild: disseminando a cultura da inovação

Ao mesmo tempo que fortaleceu o papel de liderança do Vale do Silício na indústria de semicondutores, a Fairchild Semiconductor logo fomentou um outro hábito do Vale. Quando diversos pesquisadores da Fairchild decidiram que a empresa não era rápida o suficiente para acompanhar suas idéias, eles a abandonaram para formar suas próprias empresas de semicondutores — muitas vezes chamadas de “herdeiras da Fairchild”.

O número surpreendente (e, em muitos casos, o sucesso) dessas empresas iniciantes criou a noção de que era correto abandonar uma empresa para ir em busca de suas próprias idéias. Também era aceitável pular de empresa em empresa à procura do próximo grande acontecimento. Esses conceitos eram novos e singulares; em outras partes dos Estados Unidos a expectativa era de que os funcionários ficassem em uma empresa por toda a carreira.

Seguindo essa tendência, dois dos co-fundadores da Fairchild Semiconductor, Robert Noyce e Gordon Moore, deixaram a empresa em 1968 para formar a Intel. Em poucos anos, a Intel produziria o primeiro verdadeiro microprocessador.

Ao longo do tempo, a efervescente indústria de semicondutores atraiu pessoas que queriam utilizar essa nova tecnologia. Mais uma vez, os entusiastas locais começaram a fazer experiências com microprocessadores para ver que tipos de máquinas poderiam construir. O Vale do Silício transformou-se em uma força inovadora incontrolável.

Pesquisadores de dois laboratórios — Xerox PARC e SRI (Instituto de Pesquisa Stanford) — começaram a desenvolver muitas das idéias que formariam a base da revolução na computação. Muitas vezes esses centros se mostravam dispostos a compartilhar suas inovações com outros centros da comunidade do Vale do Silício. Invenções como o mouse, a interface gráfica do usuário e a ethernet foram parar nas mãos de empreendedores locais dessa maneira. Apple, Cisco e Sun Microsystems, por exemplo, podem, todas elas, buscar suas raízes na Xerox PARC.

Outra vez, o intercâmbio aberto de idéias levou ao sucesso empresarial do Vale do Silício. O fundador da Apple Computer, Steve Jobs, por exemplo, contratou alguns dos projetistas de computadores pessoais da Xerox PARC para os projetos de sua própria empresa, enquanto o co-fundador da Sun Andy Bechtolsheim usou a mesma máquina PARC e a tecnologia de redes de contato da ethernet como inspiração para o primeiro servidor de sua empresa.

Nos próximos anos, números crescentes de empreendedores iriam, por sua vez, construir algo com base nesse trabalho. Os estudantes de Stanford, em particular, demonstraram talento para explorar as tendências tecnológicas, e empresas como a Yahoo! e a Google começaram como conceito de “dormitório”.

O imenso número de gigantes da inovação e da tecnologia ligados ao Vale do Silício parece quase difícil de apreender. São Francisco, por exemplo, foi a origem da televisão, pelo trabalho de Philo Farnsworth, e da indústria de biotecnologia, por meio da Genentech. A região do grande Vale do Silício deu origem a verdadeiros gigantes como Intel, HP, Cisco, Sun, Oracle, Electronic Arts, SGI, Yahoo!, eBay, Google e AMD.

Hewlett-Packard co-founder David Packard testing an HP 205A signal generator in the late 1930s–early 1940s. Packard and William Hewlett founded their company in 1938 with a borrowed $538, and ran it from the garage depicted on the front cover of this eJournal.
O co-fundador da Hewlett-Packard David Packard testa gerador de sinal HP 205A no fim dos anos 1930 e início dos anos 1940. Packard and William Hewlett fundaram a empresa em 1938 com um empréstimo de US$ 538 e a dirigiram a partir da garagem retratada na capa desta eJournal (HO/© AP Images)

Ingredientes do sucesso

Essas histórias de sucesso foram o resultado do caráter peculiar do Vale, que valoriza a inovação e o fluxo de informações entre empreendedores. É compreensível que as empresas de tecnologia, assim como negócios de outras áreas, desejem manter o maior controle possível sobre sua propriedade intelectual. Elas esperam controlar e comercializar suas inovações, lucrando com elas.

Mas no Vale do Silício muitos também entendem que um de seus ativos mais importantes são suas raízes longas e profundas, quase como um enorme clube a compartilhar novas idéias. Os entusiastas pressionam uns aos outros para que apareçam com algo novo e melhor. Os funcionários mudam de empresa para empresa levando com eles conceitos que podem ser refinados para criar uma nova invenção. Esses mesmos funcionários cruzam o Vale do Silício pela Estrada Sand Hill, apresentando suas idéias a um investidor de capital de risco após outro, semeando as mentes dos atores influentes do Vale com noções das direções seguidas pela tecnologia.

Em tudo isso, as pessoas do Vale aceitam o fracasso como parte do negócio. Em vez de envergonhar-se por uma série de empresas iniciantes falidas, usam essas experiências como distintivo de honra — e sabe-se que ele ou ela vai seguir em frente até acertar “grandes tacadas”. E talvez esse espírito remonte à Busca do Ouro na Califórnia de 1849, aquele momento em que as pessoas não tinham receio de arriscar ou seguir seus impulsos que, analogamente, marcou de forma indelével a psique da região.

É essa rica mistura de forças entrelaçadas que torna o Vale do Silício tão difícil de copiar. As pessoas suportam os altos preços das moradias e as pressões no emprego por sentir que o mesmo trabalho não pode ser realizado em nenhum outro lugar. Há quase um sentimento de que se está vivendo dentro de uma feira — muito ensolarada, por sinal — em que tudo que você precisa cobrar depois de ter uma inspiração ou uma idéia está a seu alcance: tecnologia, financiamento e, naturalmente, talento.

O Vale do Silício certamente enfrenta pressões competitivas. Várias regiões do mundo inteiro dispõem de grandes talentos e capital e a determinação de melhorar o discernimento tecnológico. Mas a interação de forças culturais e empresariais que ajudaram a moldar o Vale do Silício continua vibrante e deverá continuar a garantir o lugar da região como uma inigualável potência tecnológica.

Venture Capital Meets Hi-Tech

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.

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