Negócios, Investidores e Meio AmbienteMatthew Patsky e Elizabeth Levy
| |||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|
ATENÇÃO FOCADA NO RISCO Na primeira onda de investimentos ambientais nos anos 1980 e início dos anos 1990, a maior preocupação dos investidores ambientais era com as perspectivas de risco. Os enormes prejuízos provocados pelos processos contra amianto — estimados em mais de US$ 250 bilhões somente nos Estados Unidos, como informou a revista The Economist em 2005 — levaram alguns investidores a incluir passivos ambientais em suas análises financeiras, tais como responsabilidade e provisão para remediação de sítios contaminados por resíduos sólidos que são considerados sítios do Superfundo pelo governo federal. Os investidores começaram a incorporar a seu repertório outros indicadores ambientais, tais como o uso e as emissões de produtos químicos perigosos. Organizações de pesquisa como a KLD e o Centro de Pesquisa sobre Responsabilidade do Investidor (agora parte do Grupo RiskMetrics) forneceu aos investidores dados sobre conformidade e violações de normas regulatórias ambientais, emissões de substâncias tóxicas e programas de gestão ambiental. Atualmente, os investidores ambientais levam em conta não apenas o risco retroativo, mas também os futuros riscos ambientais, em especial os relacionados com mudanças climáticas. Para muitos investidores ambientais, bem como vários ambientalistas, a mudança climática tornou-se uma preocupação dominante que abrange outras, como o uso e a escassez da água potável, a destruição de hábitats animais e a poluição do ar. Para as empresas analisadas pelos investidores, a questão da mudança climática apresenta uma série de desafios tanto para o negócio atual como também para o planejamento futuro. Por exemplo, segundo a consultoria em gestão de riscos meteorológicos Storm Exchange, uma elevação de dois graus na temperatura média no último trimestre pode causar queda de 1% nas vendas de uma mesma loja, medida-chave usada por analistas financeiros para avaliar varejistas. Em setembro de 2007, a temperatura média ficou cerca de dois graus mais quente do que o normal, e o mês de outubro de 2007 teve o crescimento de vendas mais lento em 12 anos, segundo o Conselho Internacional de Shopping Centers. As preocupações climáticas e ambientais também estão afetando o modo de pensar dos investidores em private equity que atuam na compra e venda de empresas. Em janeiro de 2007, a empresa de energia do Texas TXU Corp. foi adquirida pela Goldman Sachs e as empresas de investimentos em private equity Texas Pacific Group e Kohlberg Kravis Roberts. É interessante destacar que os compradores anunciaram que haviam consultado importantes grupos ambientais, a Defesa Ambiental e o Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, e que eles haviam concordado em estabelecer a meta mais razoável de construir três usinas elétricas a carvão para o polêmico plano que previa inicialmente a construção de 11 novas usinas, como parte do acordo de compra. Com a rejeição dos planos de novas usinas elétricas a carvão pelos governos de Kansas, Oklahoma, Flórida e do estado de Washington no final de 2007, o acordo dos investidores da TXU demonstra ser presciente.
NOVAS OPORTUNIDADES Mas em vez de apenas analisar as informações relativas ao meio ambiente para ajudar na avaliação de riscos, uma nova onda de investidores ambientais está vendo a proteção ambiental como uma oportunidade para investir em setores do mercado que mal existiam há alguns anos. Por exemplo, o investimento direto global em empresas de capital aberto relacionadas com energia alternativa, como por meio de ofertas públicas iniciais (IPOs) ou ofertas públicas secundárias, foi inferior a US$ 1 bilhão em 2004, segundo a empresa de pesquisa New Energy Finance (NEF). Em 2007, esse montante atingiu quase US$ 25 bilhões (veja gráfico). Somente em 2007, o fluxo de investimentos diretos em dólar para empresas permitiu a expansão de fábricas de células solares, o desenvolvimento de fazendas eólicas, a aquisição de projetos hidrelétricos do tipo run-of-river (técnica de geração de eletricidade a partir do rio, sem necessidade de criar represas), culturas para produção de combustíveis e o desenvolvimento de usinas de energia geotérmica, entre outras. O fluxo de capital dessas empresas que trabalham em prol do meio ambiente tem trazido algumas conseqüências interessantes para os investidores ambientais. A primeira é que há agora um número muito maior de empresas nas quais os investidores ambientais podem realizar investimentos. De acordo com a New Energy Finance, entre 1992 e 2002, havia 30 IPOs de empresas relacionadas com energia alternativa angariando cerca de US$ 2 bilhões; em 2003-2004, 29 IPOs levantaram US$ 7 bilhões; em 2005-2006, 92 IPOs angariaram US$ 13 bilhões; e somente em 2007, 61 IPOs conseguiram levantar US$ 17 bilhões.
Assim como o universo de empresas oferecendo soluções ambientais está inchado, o mesmo ocorre no âmbito daqueles que nelas investem. Há atualmente vários fundos investindo em projetos de energia alternativa, inclusive os fundos negociados em bolsa (ETFs) que investem em índices de energia alternativa, fundos mútuos ativamente administrados e uma miríade de fundos de private equity, muitos lançados nos últimos dois anos. Mais notável ainda, os investidores têm agora a possibilidade de ganhar dinheiro investindo nessas novas tecnologias, o que historicamente nem sempre tem sido verdadeiro. Por exemplo, o investimento em energia alternativa tem sido o foco do Fundo de Novas Alternativas desde 1996, período mais longo do que qualquer dos índices de energia alternativa amplamente acompanhados. Entre 1996 e 2004, o desempenho do fundo foi essencialmente fixo; entre 2005 e 2007, as ações do fundo praticamente dobraram de valor. Muitos índices e outros fundos que estão investindo em energia alternativa vêm mostrando forte desempenho desde 2005. FORÇA DOS INVESTIDORES Muitos investidores ambientais não hesitam em dizer o que pensam às empresas nas quais investem. A principal ferramenta usada pelos investidores na análise de investimentos potenciais é a divulgação de informações das empresas. Embora a divulgação de informações financeiras seja cuidadosamente monitorada por órgãos regulatórios nacionais e internacionais, a divulgação de informações ambientais é ainda em grande parte voluntária. Grupos de investidores com a mesma opinião juntam-se para requerer esse tipo de informação. Por exemplo, o Projeto de Informações sobre a Emissão de Gases de Efeito Estufa, representando um grupo de investidores responsável pela administração de US$ 41 trilhões, solicita anualmente a líderes empresariais globais para apresentar suas emissões de gases de efeito estufa em formato padrão comparável. E, nos Estados Unidos, a Rede de Analistas de Pesquisa de Investimento Social publicou declaração representando empresas administradoras de US$ 435 bilhões, inclusive a Winslow Management Company, pedindo para que publiquem dados socioambientais de sustentabilidade de acordo com o conjunto de normas de diretrizes publicadas pela Global Reporting Initiative, organização não-governamental internacional criadora da estrutura mais amplamente reconhecida para elaboração de relatórios de sustentabilidade. Além de pedir às empresas que realizem coisas, os investidores também podem dizer a elas o que fazer apresentando resoluções por procuração para serem votadas nas assembléias anuais das empresas. Embora os resultados desses votos por procuração não sejam obrigatórios, ou seja, podem ser ignorados pela administração da empresa, uma grande votação pode enviar-lhe uma mensagem poderosa. Em janeiro de 2008 o Centro Inter-Religioso sobre Responsabilidade Corporativa informou que havia coletado dados sobre resoluções apresentadas por mais de 60 empresas negociadas nas bolsas de valores dos EUA para suas assembléias anuais de 2008. As solicitações mais comuns constantes dessas resoluções pediam a preparação de um relatório de sustentabilidade, redução de emissões de gases de efeito estufa e o uso de produtos de madeira e papel cultivados e colhidos de forma sustentável. DEMANDA POR INVESTIMENTOS VERDES Vai longe o tempo em que as questões ambientais eram apenas preocupação de estudantes e ativistas. Hoje é bastante comum ouvir comitês de investimento ou os conselhos das empresas nas quais eles investem falarem de “reduções de emissão” ou “prevenção de poluição”. Liderados por investidores dedicados à causa ambiental, atualmente mesmo os principais investidores começam a reconhecer o valor das informações ambientais e a proteção ao meio ambiente. Na assembléia anual de 2007 da ExxonMobil, por exemplo, uma resolução por procuração patrocinada pelos acionistas pedindo metas específicas de redução de gases de efeito estufa reuniu mais de 30% dos votos, demonstrando a ampliação do leque de investidores agora preocupados com esse assunto. Embora os governos do mundo inteiro tenham começado a negociar um tratado do clima pós-2012, a necessidade e a demanda por responsabilidade e proteção ambiental das empresas só farão aumentar, e o mesmo ocorrerá com a atenção dos investidores.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. | |||||||