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“Alguma Coisa Está Acontecendo na Vila Olímpica”

Barry Newcombe

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Ideais Olímpicos e Realidades do Mundo
Administração de Esportes Olímpicos nos Estados Unidos
As Novidades nos Jogos de Pequim
De Espectadora a Campeã: Evolução do Papel da Mulher Olímpica
“Espírito em Movimento”
Arquitetura Olímpica: Construções mais Altas e mais Fortes
O Público nos Levantou
O Hino Nacional da Minha Pátria
Tudo o Mais Pára
Competir Sempre pelo Objetivo Maior
Perde-se Muito Antes de Chegar Lá
O Grande Clímax
Dando o Máximo
Percepção da Água
Os Competidores
Maratona Jornalística
O Maior Velocista Vira Pó
“Alguma Coisa Está Acontecendo na Vila Olímpica”
Recursos
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Os Jogos Olímpicos criam uma breve janela de tempo quando nos permitimos acreditar que a paz e a boa vontade prevalecem no mundo, que competição e harmonia podem coexistir. Essa crença tornou-se ilusão em 5 de setembro de 1972, em Munique, quando atletas olímpicos israelenses foram feitos reféns pela organização terrorista Setembro Negro. Barry Newcombe relembra o dia e sua atuação como jovem repórter de um jornal britânico.

O autor é atualmente presidente da Associação de Jornalistas Esportivos da Grã-Bretanha.

At the 1972 Munich Games, an armed German policeman was on the roof of a dormitory where members of the Black September terrorist group had earlier captured and held members of the Israeli Olympic team.
Nos Jogos de Munique de 1972, um policial alemão armado estava no telhado do dormitório onde membros da equipe olímpica de Israel haviam sido capturados pouco antes e mantidos reféns pelo grupo terrorista Setembro Negro (Hulton Archive/Getty Images)

Era a segunda terça-feira dos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. Como era um dia em que não haveria competições de atletismo, esperava-se trabalhar menos. Mas o telefone junto da minha cama começou a tocar logo depois das seis da manhã. A voz ao telefone disse: “Alguma coisa está acontecendo na Vila Olímpica; você deveria ir até lá.”

Corri para a escada e desci rápido, trocando o alojamento da imprensa pelo ar da manhã. Todos ao meu redor corriam em direção à vila, levados por uma gigantesca onda de rumores. Quando refiz o mesmo caminho 24 horas depois, o mundo olímpico havia virado de pernas para o ar. E o meu também. Eu era um jornalista esportivo na cobertura da maior história da minha carreira.

Do ponto de vista do tempo, as notícias daquele dia encaixavam-se perfeitamente no cronograma da produção do jornal em que eu trabalhava, o Evening Standard londrino. O fuso horário de Munique era uma hora a mais que Londres; minha primeira edição logo estaria sendo impressa. Quatro outras edições seriam impressas no final da tarde. Éramos dois para realizar a tarefa: meu colega sênior, jornalista de atletismo, e eu. O outro membro da nossa equipe estava hospitalizado, à espera de uma cirurgia cardíaca.

An unidentified cameraman was shoved from the Olympic Village by a German policeman after he tried to film the building where terrorists held Israelis hostage.
Operador de câmera não identificado foi expulso da Vila Olímpica por um policial alemão após tentar filmar o prédio onde os terroristas mantiveram os atletas israelenses como reféns (© AP Images)

Em comparação com os dias de hoje, a comunicação era limitada. Para poder me comunicar com a redação do jornal, eu tinha de procurar um telefone para que fizesse ligações internacionais, assim como toda a multidão de jornalistas de várias partes do mundo. A demanda por telefones era enorme, parte importante das dificuldades que envolviam uma tarefa tão extraordinária. Não havia cabines telefônicas no local do lado de fora da Vila Olímpica onde, no número 31 de uma rua de nome Connolly Strasse, terroristas árabes mantinham 11 atletas israelenses como reféns.

Os rumores corriam soltos durante todo o dia, atrás de informações precisas. Na Fleet Street, em Londres, chamamos isso de “degrau de igreja”, quando uma multidão de jornalistas espera horas a fio por qualquer pedacinho de notícia sobre a história que está cobrindo. Naquele dia, nosso acesso aos fatos foi muito lento. Na hora em que o processo de produção do meu jornal chegou ao fim, todos continuavam na mesma posição — os terroristas, os reféns, a mídia. Disseram que um repórter havia colocado uma roupa de corrida e corrido até a Vila Olímpica, afirmando ser um maratonista em exercícios de treinamento. Outro teria rastejado por baixo da cerca que a circundava.

Quando a luz do dia acabou, ficou claro que as autoridades levariam os principais jogadores da rua de nome Connolly Strasse para o aeroporto. A notícia era que os terroristas haviam exigido a libertação de 234 árabes detidos em prisões israelenses e também trânsito seguro para deixar a Alemanha. Um ônibus e dois helicópteros foram destacados para o transporte dos terroristas e dos reféns.

Nossa equipe de dois homens tinha de cobrir os dois aeroportos de onde partiriam da Alemanha. Meu colega Wally, que tinha servido no corpo de tanques durante a Segunda Guerra Mundial, atirou uma moeda para o alto e decidiu a questão. Ele foi para o aeroporto Fürstenfeldbruck, a oeste de Munique, e eu fui para o Riem, que fica ao norte.

A base aérea em Fürstenfeldbruck era o lugar onde se deveria estar. Meu colega posicionou-se no perímetro. De repente, tiros irromperam na escuridão. “Abaixe-se, no chão, e fique assim até eu mandar levantar”, disse Wally para um jovem redator ao seu lado. O tiroteio dentro e fora dos helicópteros foi dito ser decisivo, e poucos eram os que sabiam, com algum grau de precisão, o que havia acontecido. Uma vez mais, os rumores precediam os fatos.

Two German police helicopters stand on the field at Fürstenfeldbruck air base after they were used to transport armed terrorists and Israeli hostages from the Olympic team. The helicopter in the foreground was destroyed by a hand grenade explosion set off by one of the terrorists, apparently committing suicide rather than risking capture. Eleven Israelis died, along with one German policeman. Five of eight terrorists were killed by police in a failed rescue attempt.
Dois helicópteros da polícia alemã estão no campo da base aérea de Fürstenfeldbruck após terem sido usados para transportar terroristas armados e reféns da equipe olímpica israelense. O helicóptero em primeiro plano foi destruído por uma explosão de granada de mão detonada por um dos terroristas, aparentemente preferindo o suicídio ao risco de ser capturado. Onze israelenses e um policial alemão morreram. Cinco dos oito terroristas foram mortos pela polícia em uma tentativa de resgate fracassada (© AP Images)

A mídia retirou-se para o principal centro de imprensa. As primeiras notícias foram animadoras — todos estão seguros, disseram as autoridades. Essa declaração foi publicada como fato na primeira página de todos os jornais da Grã-Bretanha e de muitos outros países. O longo dia e a longa noite chegavam ao fim de forma satisfatória, pensávamos.

Mas tudo ainda estava muito longe de acabar. Outra coletiva de imprensa foi convocada de última hora. Dessa vez a história era completamente diferente — ninguém havia se salvado. Estavam todos mortos, disseram. O amanhecer chegou sombrio alguns minutos depois.

Arranjei uma mesa, escrevi a história e quando a redação do jornal abriu as portas para o novo dia ditei mais de mil palavras sobre a mais longa operação que eu já havia testemunhado. Como muitos outros jornalistas esportivos, eu tinha tido de atender às exigências. Era uma indicação de que as lições que aprendera como estagiário mostrariam seu valor sob pressão.

Os Jogos de Munique recomeçaram e foram prorrogados por um dia. Eles jamais serão esquecidos por quem esteve lá. As implicações para a segurança tornaram-se óbvias a partir de então, e o espírito olímpico terá de conviver com essa vigilância. Não há como ignorar essa realidade. Uma coisa é certa sobre Munique 1972. Os acontecimentos desse ano têm influenciado o planejamento de cada um dos Jogos Olímpicos realizados desde então e continuarão a fazê-lo.